Nasci do ontem, do inverno retrasado, passado do retrasado do seu passo. Minha memória trouxe clara a lembrança da minha fala quando encontrei meu corpo caído ao chão. Corpo que via com seus olhos, que andava com suas pernas, mas que também era eu. Ser eu sozinho, não consigo nessa ilha de pensamento escuro, escondido no volume das vozes, dos carros que correm, do meu espaço confuso e apertado e estranho e calado, embora barulhento. Eu entendo a sua gritaria me pedindo calma ao falar de vida. Eu entendo a sua pressa quando me pede, em um instante em que a vida te interessa, que eu tenha a gentileza de te dar passagem de primeira viagem ao inferno que me espera, embora eu chore, embora eu peça, embora eu implore, eu retruque. Eu morri na cadeira que faltou, que se escondeu, que morreu na luta do inverno em que eu nasci e nasceu também o filho seu. Eu cantei poemas retirados, músicas mal traduzidas, folhas secas de árvores escondidas nos meios da sua bíblia. Eu fugi dali. Eu fugi de onde a gente combinou se encontrar na tarde de verão de 52° de alguma cidade escondida no Brasil. Eu fui sozinho ao encontro do Deus, da Deus, de Deus. Eu me perdi na escuridão que a falta da sua memória me deu.
quinta-feira, 18 de março de 2010
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